Revisando conceitos
- Shitōryū Karatedō

- há 3 dias
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Onegaishimasu!
(^_^)
"Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha."— Confúcio (Kǒngfūzǐ)
Essa máxima sintetiza, de maneira bastante precisa, o espírito do aprendizado contínuo. O conhecimento não é adquirido de uma só vez, mas construído gradualmente, por meio do estudo, da prática e da reflexão. É justamente esse princípio que orienta esta série de publicações.
Revisando os conceitos fundamentais
Nos textos anteriores foram apresentados alguns conceitos considerados essenciais para a compreensão das artes marciais japonesas sob uma perspectiva histórica, cultural e linguística. Entre eles destacam-se:
a importância da pesquisa como instrumento de construção do conhecimento;
o reconhecimento de que não existem verdades definitivas, mas interpretações continuamente sujeitas à revisão;
a necessidade de manter o equilíbrio entre teoria e prática, conforme o princípio do Bunbu-ichi (文武一);
a conveniência de conhecer a terminologia básica da língua japonesa;
a utilização de um sistema padronizado de romanização para a transcrição dos caracteres japoneses;
noções introdutórias sobre Kanji (漢字), Kana (仮名) e Rōmaji (ローマ字);
as principais características do Sistema Hepburn de Romanização.
Esses conhecimentos constituem uma base importante para evitar equívocos bastante comuns na literatura ocidental sobre artes marciais japonesas.
Algumas características da língua japonesa
Antes de prosseguir, convém compreender determinados aspectos estruturais da língua japonesa que frequentemente são desconsiderados quando seus termos são incorporados às línguas ocidentais.
De maneira geral, a língua japonesa apresenta características bastante distintas do português:
não possui artigos definidos ou indefinidos;
os substantivos não apresentam gênero gramatical;
não existe flexão de plural semelhante à das línguas latinas;
praticamente todas as palavras terminam em vogal, sendo a única exceção a consoante nasal n (ん).
Embora possam parecer detalhes meramente linguísticos, essas características influenciam diretamente a forma correta de escrever a terminologia utilizada nas artes marciais.
O problema da pluralização
Um dos equívocos mais frequentes consiste em pluralizar palavras japonesas de acordo com as regras do português.
São comuns expressões como:
Katas;
Senseis;
Dojos;
Samurais.
Sob o ponto de vista da língua japonesa, entretanto, essas formas são incorretas.
Em japonês, os substantivos permanecem invariáveis. A ideia de plural é determinada pelo contexto da frase ou pelo uso de numerais e partículas específicas, não pela adição da letra "s" ao final da palavra.
Assim, recomenda-se escrever:
os kata;
os sensei;
os dōjō;
os samurai.
Observe que apenas o artigo é flexionado em português; o vocábulo japonês permanece inalterado.
Um exemplo bastante conhecido
Não raro surgem discussões como:
"O correto é escrever os Katas?"
ou ainda:
"O correto é as Katas."
Na realidade, ambas as construções apresentam o mesmo problema: a pluralização do substantivo japonês.
Como a língua japonesa não possui flexão de plural, o correto é manter a palavra invariável:
os kata;
as kata.
Em português, o emprego de "os" ou "as" dependerá do contexto em que o termo for utilizado. Entretanto, independentemente da escolha do artigo, a palavra japonesa não deve receber a desinência de plural.
Embora essa construção possa causar estranhamento aos falantes do português, ela respeita a estrutura original da língua japonesa e vem sendo adotada, cada vez mais, por pesquisadores e tradutores especializados.
A pronúncia das palavras terminadas em su
Outro aspecto frequentemente interpretado de maneira equivocada diz respeito à pronúncia da sílaba su (す) quando aparece no final das palavras.
Na língua japonesa, essa vogal frequentemente sofre um processo fonético denominado desvozeamento (devoicing), tornando-se praticamente inaudível em determinadas situações. Isso, contudo, afeta apenas a pronúncia, jamais a escrita.
Por essa razão, as formas corretas são:
Onegaishimasu (おねがいします);
Osu (おす);
Arigatō gozaimasu (ありがとうございます).
Na fala cotidiana, entretanto, essas palavras costumam ser pronunciadas aproximadamente como:
Onegaishimass;
Oss;
Arigatō gozaimass.
A diferença entre escrita e pronúncia constitui uma característica natural da língua japonesa e não justifica a alteração da grafia.
A escrita correta como instrumento de aprendizagem
Alguns praticantes defendem que escrever "Oss" ou "Onegaishimass" facilitaria o aprendizado da pronúncia, especialmente para iniciantes.
Todavia, essa adaptação não se mostra necessária.
A experiência demonstra que basta explicar ao aluno que determinadas vogais finais possuem pronúncia reduzida para que ele compreenda rapidamente a diferença entre a forma escrita e a forma pronunciada.
Ensinar a grafia correta desde o início evita a consolidação de erros e contribui para preservar a terminologia original das artes marciais japonesas.
Considerações finais
Pode parecer que essas observações tratem apenas de pequenos detalhes linguísticos. Contudo, nas artes marciais tradicionais, o cuidado com os detalhes sempre foi entendido como parte do próprio processo de aperfeiçoamento.
Escrever corretamente os termos japoneses não representa mero preciosismo acadêmico. Trata-se de uma demonstração de respeito pela língua, pela cultura e pela tradição que deram origem ao Budō.
Da mesma forma que buscamos executar corretamente um kata ou aperfeiçoar continuamente uma técnica, também devemos procurar utilizar a terminologia de maneira precisa.
Esse compromisso com a exatidão, o estudo e a melhoria contínua constitui uma das características fundamentais do verdadeiro praticante das artes marciais japonesas.
Denis Andretta
Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
Onegaishimasu! (^_^)


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