

Kenwa Mabuni e a Importância do Kata
Alguém que pode falar com autoridade sobre esse assunto é Kenwa Mabuni (摩文仁賢和, 1889–1952), fundador do estilo Shitō-ryū (糸東流) e um dos principais mestres responsáveis pela difusão do Karate-dō de Okinawa no Japão continental (IWAI, p. 187–211).
Mabuni estudou com algumas das mais importantes figuras da história do Karate, entre elas Ankō Itosu, Kanryō Higaonna, Gōgenki, Seishō Aragaki e Chōmō Hanashiro (McCARTHY, p. 1–37). Costuma-se afirmar que ele conhecia praticamente todos os kata preservados em Okinawa em sua época (McCARTHY, p. 11; IWAI, p. 207–210).
Hiroshi Kinjo, contemporâneo de Mabuni, relatou a Patrick McCarthy que, sempre que alguém desejava aprender, corrigir ou compreender melhor as aplicações (bunkai) de determinado kata, procurava Kenwa Mabuni em busca de orientação (McCARTHY, p. 25). Kinjo menciona, inclusive, o nome do célebre mestre Gichin Funakoshi entre aqueles que recorriam aos seus conhecimentos.
Diante desses testemunhos, é possível afirmar que o fundador do Shitō-ryū foi um dos maiores especialistas em kata de sua geração, sendo amplamente reconhecido pela profundidade de seus conhecimentos técnicos e históricos.
A Necessidade de Treinar Corretamente
O kata constitui um dos pilares fundamentais do Karate-dō. Em suas sequências encontram-se preservadas diversas técnicas de ataque, defesa, deslocamento, controle e combate. Por essa razão, é indispensável compreender o significado e a aplicação de cada movimento para que o treinamento seja realizado de forma consciente e eficaz.
Muitas vezes acredita-se que o treinamento de kumite seja suficiente. No entanto, negligenciar o estudo dos kata impede o verdadeiro progresso na arte. Isso ocorre porque as técnicas de ataque e defesa variam de acordo com as circunstâncias, o ambiente, o adversário e até mesmo das “armas” utilizadas. Tais situações não podem ser previstas nem plenamente exploradas apenas por meio do combate livre, daí a necessidade de estudar e praticar as formas.
Por outro lado, abandonar o treinamento de kumite também é um erro. Sem ele, perdem-se atributos importantes, como agilidade, reflexos, condicionamento físico, resistência e capacidade de reação, qualidades indispensáveis ao praticante.
Não é necessário aprender e praticar todos os kata de um estilo, sobretudo quando não se possui uma compreensão profunda de seus movimentos e aplicações. É preferível estudar três ou quatro formas de maneira aprofundada, compreendendo cada uma de suas técnicas, e utilizar os demais kata como material de referência e pesquisa.
No Karate-dō, aproximadamente metade do treinamento deveria ser dedicada ao estudo consciente e aprofundado dos kata. A outra metade deveria ser dividida entre a prática de kumite, o treinamento no makiwara e o desenvolvimento do condicionamento físico.
Três Fatores Importantes na Prática
O kata possui três fatores fundamentais:
1. Técnica Correta - A técnica correta é alcançada por meio da compreensão profunda de cada movimento executado, bem como de suas aplicações práticas.
2. Respiração - Existem diferentes formas de respiração utilizadas durante a execução dos kata:
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Inspiração profunda seguida de expiração profunda;
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Inspiração profunda seguida de expiração curta;
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Inspiração curta seguida de expiração curta;
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Inspiração curta seguida de expiração profunda;
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Combinações variadas entre essas formas respiratórias.
Cada movimento deve ser acompanhado pelo padrão respiratório mais adequado à sua finalidade e à sua aplicação.
3. Estabilidade e Equilíbrio - A estabilidade é essencial para a correta execução do kata. Não basta que a técnica seja correta e a respiração adequada se o equilíbrio corporal for deficiente. A eficiência do movimento depende da integração harmoniosa desses elementos.
Nenhum desses três fatores deve ser negligenciado por quem deseja avançar seriamente no treinamento.
Kata: O Livro Sem Letras
O kata pode ser descrito metaforicamente como um “livro sem letras”.
Quando praticado de forma adequada, ele proporciona inúmeros benefícios físicos, técnicos e mentais.
Da mesma forma que uma pessoa interpreta um livro sagrado de acordo com sua idade, experiência, circunstâncias e estado de espírito, também a compreensão de um kata se modifica ao longo da vida. Quanto mais vezes se retorna ao mesmo texto, maior tende a ser a profundidade da compreensão. O mesmo ocorre com as formas do Karate.
Entretanto, o “livro sem letras” do kata não pode ser lido com os olhos. Sua compreensão depende da prática corporal. O conhecimento nele contido é revelado por meio do movimento e da experiência adquirida através do treinamento constante.
Algumas pessoas acreditam que, após aprender um kata, basta memorizá-lo para não esquecê-lo. Essa ideia é equivocada. Não é suficiente recordar intelectualmente os movimentos; é necessário praticá-los repetidamente. Um livro alimenta o espírito quando é lido, mas o corpo não pode ser fortalecido apenas pela lembrança do conhecimento. Por isso, o treinamento contínuo é indispensável para que os benefícios do kata sejam plenamente alcançados.
Assim como a compreensão de um livro depende da idade e das circunstâncias do leitor, a influência do kata também varia conforme a saúde, a disposição física, a maturidade e a experiência do praticante.
A influência da prática das formas é imensa. O treinamento constante dos kata contribui para aumentar a vitalidade, fortalecer o corpo e preservar a saúde ao longo dos anos. Em última análise, esses benefícios favorecem uma vida mais longa e equilibrada.
O Kata Está Vivo
Ao observar a execução de um kata, é possível avaliar, em certa medida, o nível de compreensão alcançado pelo praticante. Quando as técnicas são realmente compreendidas, a execução demonstra convicção, intenção e vitalidade. Quando não há entendimento, os movimentos tornam-se vazios e mecânicos.
O kata pode ser comparado a um dicionário que contém uma enorme variedade de técnicas. Embora o Karate-dō seja essencialmente uma arte desarmada, ele ensina a transformar diversas partes do corpo em armas naturais eficazes.
Todo esse arsenal técnico encontra-se preservado nos kata. Existem muitas formas, e cada uma delas contém uma vasta quantidade de conhecimentos. Entre essas técnicas certamente se encontram soluções para inúmeras situações de combate. Contudo, sem uma compreensão adequada dos kata, o praticante não conseguirá identificar e utilizar tais recursos.
Existem pessoas que treinam exclusivamente kumite e acreditam ter criado ou descoberto técnicas inéditas. Entretanto, se estudassem os kata com profundidade, perceberiam que muitas dessas técnicas já estavam preservadas nas formas tradicionais. Pode-se dizer que poucas técnicas são verdadeiramente novas; antes de nós, outros praticantes já as descobriram, aperfeiçoaram e registraram nos kata.
Por essa razão, quem pratica Karate-dō não deve limitar-se exclusivamente ao próprio estilo. É importante conhecer outras escolas e tradições, compará-las, aprender com elas e compreender seus pontos fortes e fracos. Somente por meio desse estudo amplo é possível desenvolver uma compreensão mais profunda da arte e aperfeiçoar o próprio treinamento.
Sem um conhecimento genuíno do Karate-dō, não pode haver uma valorização verdadeira dos kata.
Todos os karateka deveriam refletir sobre essas ideias e aplicá-las adequadamente em sua prática. Caso contrário, dificilmente alcançarão pleno êxito no caminho do Karate-dō.
